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7.8.03

Crónica gastronómica 

De regresso de férias, deparo-me com as vossas já habituais e imprescindiveis newsletters. Tão imprescindíveis que acatei algumas das vossas sugestões e tendo veraneado pela região de Tavira, nada como visitar o tão recomendado "O Costa", na Cacela Velha. Permitam-me agora discordar dos vossos insistentes (semana após semana) convites para uma visita a este restaurante: a experiência não foi, de facto, das melhores. Quanto às ostras e ao fabuloso arroz de lingueirão nada a dizer - irrepreensível, delicioso, fantástico, só de pensar parece que vem até mim o aroma das férias. Mas julgo não ser só isso que traz a fama a uma casa: o atendimento deixa, de facto, muito a desejar (e estou a ser simpática, juro). O tempo que, inexplicavelmente, se demora até termos nas mãos uma ementa, o tempo que se perde (neste caso, perde-se mesmo) até vir um empregado receber um pedido, até vir um outro colocar os pratos, um outro trazer as bebidas, enfim... a desorganização é muita e a simpatia não abunda, mesmo nada, por aqueles lados.

Em contrapartida atrevo-me a sugerir duas pérolas da cozinha algarvia: "O ideal" em Cabanas de Tavira, chamar-lhe-ía mesmo uma "casa de família" em que nos podemos realmente sentir em casa, um atendimento cuidado, cuidadoso, sem cair em excessos e uma muito aconselhada e afamada sopa de peixe servida no pão (apenas disponível por encomenda), um polvo em tomatada do melhor com que se pode sonhar, enfim... as farófias pelos vistos também são o ex-libris da casa, pena nunca chegarem para as encomendas (por algum motivo será).

Também em Cabanas, mais propriamente no emprendimento "Pedras da Rainha", bem escondido dos olhares de todos, um oásis, a calma e o charme para um jantar a dois em que as entradas fabulosas deixam saudades (os ovos mexidos com tomate ou o queijo com mel e amêndoas são para repetir) e o sabor do recomendado caril de lulas nos leva para outras paragens. Sem dúvida o sítio ideal para celebrar o adeus às férias e o princípio de muita coisa (Já pareço o afamado e, agora apaixonado, escriba João Gobern nas suas crónicas no DN). Ah! O importante, estava relutante em revelar o nome deste espaço onde se pode disfrutar também de uma decoração e de um atendimento irrepreensíveis- Aqui fica para quem passar por aquelas paragens: Moinho Velho (emprendimento Pedras da Rainha, Cabanas de Tavira), mas Psiu... por favor, guarde só para si.

E já agora, depois da feijoada de búzios (na Estrela do Norte à saída da zona portuária de Sines) uma pergunta se impõe: "Gosta mais do Martinhal ou da praia do Amado?".

Cooled by Carla Simões

Postais da Caparica – 1 

A Pesca do Grande Areal

A Arte Xávega, também designada por Pesca do Grande Areal, é uma arte piscatória caracterizada pelo arrasto da rede junto à orla costeira, em fundos arenosos, praticada nas zonas de amplos areais.

Esta arte piscatória tem origem na costa norte, tendo-se iniciado no Século XVI, quando os pescadores começaram a ir ao mar largar as redes, lutando contra a rebentação das praias, cercando o peixe com as redes que depois eram puxadas a braços para o areal. Praticada nos períodos de invernia, era a única forma que os pescadores encontravam para conseguirem meios de subsistência, atendendo a que no Inverno, devido às baixas temperaturas da água do mar o peixe se encontrar a maiores profundidades.


Hoje em dia a arte xávega é praticada nas praias da Caparica, nos longos e doirados areais, especialmente, nas zonas da Fonte da Telha, das Acácias e da Frente Praia. É mais frequente nos períodos de mar calmo, sendo já reduzido o número de colónias de pescadores que a praticam como meio de daí retirarem proveito para a sua sobrevivência, antes utilizando esta arte nos períodos estivais, por prazer e tradição.

Desde há alguns anos que as autoridades, pressionadas por decisões da União Europeia, têm vindo a criar dificuldades a esta prática tradicional, evocando o facto de tratando-se de pesca de arrasto destruir os fundos e capturar peixe demasiado miúdo.

Da Costa à Fonte da Telha no Transpraia

Custa hoje algumas moedas de Euro ir e voltar de combóio, da Costa de Caparica, na Frente Praias, até à Fonte da Telha, junto ao Términus, percorrendo este longo e maravilhoso areal da Costa Atlântica. Em 19 de Junho de 1960, para a viagem inaugural do característico Transpraia, o mesmo bilhete custou somente vinte escudos.

No primeiro ano da década de sessenta, quando a Costa de Caparica se apresentava como uma muito bela estância balnear - a linda Praia do Sol, o Transpraia era o único transporte ferroviário à beira-mar, sobre um areal. Hoje, quase quarenta anos passados, em oitocentos quilómetros de Costa Atlântica da zona continental portuguesa, apenas se criou uma imitação pobre nas Pedras d'El Rei, próximo de Tavira.

O Transpraia é um dos símbolos da Costa de Caparica. Foi seu criador Casimiro Pinto da Silva, agricultor de Santo António da Charneca, concelho do Barreiro, apaixonado pela caça e pelo tiro ao alvo, bom viajante que traz a ideia de França, sugerida numa visita a umas minas. E a vinda até à Costa de Caparica ficou a dever-se ao médico de família que sugeriu a Praia do Sol como o local indicado para cura das amígdalas de sua filha Ana Maria da Silva, actual proprietária do Transpraia, lado a lado com o seu irmão António Manuel Pinto da Silva.

Hoje, com quatro unidades e duas máquinas alemãs Shoma, a garagem e oficinas implantadas junto à Praia da Riviera, transporta nos quatro meses da época balnear, de 1 de Julho a 30 de Setembro, trezentos mil visitantes.

Cooled by Victor Reis





28.7.03

Venham ver as Acácias em Flor na Caparica 

A partir dos princípios de Fevereiro, quando as condições climatéricas são precocemente primaveris, ou no decorrer do mês de Março, quando estas são mais adversas e teimam em prolongar a invernia, toda a zona compreendida entre as designadas "terras da Costa" e o Mar Atlântico cobre-se profusamente de um manto amarelo dourado, com o florescer do acacial.

Esta zona de vegetação, ímpar no nosso País, além da função primordial de fixação do longo areal que vai da Trafaria à Fonte da Telha, protege as fecundas "terras da Costa" da brisa do mar e serve de tampão aos fogos florestais, tendo em conta a sua fraca capacidade combustível.

Designada "Mata das Dunas da Trafaria e da Costa de Caparica", integrada na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, foi instalada entre os finais do século passado e os anos 60, com a finalidade de fixar as areias de dunas móveis, estendendo-se pela zona fronteira à arriba, sendo constituída essencialmente por várias espécies de acácias (Acácia sp.), predominando a Acácia cianophyla.

Se a instalação cuidada e sistemática do acacial data de anos recentes, com existência entre os trinta e os cem anos, a sua florescência espontânea perde-se na bruma dos tempos imemoriais, encontrando-se referências lendárias dispersas, sem marco nem era determinados.

Na época da floração do acacial, quem percorre a Descida das Vacas, vindo da Charneca de Caparica na direcção da entrada para a Praia do Rei, ao virar na curva sobranceira ao mar, é agradavelmente surpreendido por uma paisagem sem igual, onde um vasto manto verde se apresenta profusamente salpicado de vários cambiantes de amarelo, dependendo do estado de maturação das suas flores.

O amarelo, contrastando com o azul do mar e do céu, com o verde da vegetação, reflectindo a luminosidade ímpar do Sol da Caparica, emana fulgores dourados que estão, por certo, ligados ao imaginário popular do ouro amoedado que enriquecia a capa da velha, uma "Capa-Rica", segundo a lenda, na origem do topónimo de Caparica.

Não é difícil de crer que a velha mulher que a lenda refere, descesse do interior onde vivia num pobre casebre até à borda d’água, até ao acacial onde colhia muitas flores douradas que transportava no interior da sua capa. Os vizinhos e outras pessoas com que se cruzava vislumbravam laivos dourados consoante a misteriosa mulher se deslocava, imaginando que transportava consigo ouro amoedado de não menos misteriosa origem. Daí à lenda foi um passo, não muito longo, por certo.

O Gabinete da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica tem instalado nesta zona, à beira da Praia da Rainha, um Centro de Informações que proporciona aos visitantes passeios guiados por esta maravilhosa zona, percorrendo trilhos e caminhos onde a observação do acacial é mais interessante.

Cooled by Victor Reis

Voar é ser livre 

Cooled by Pedro Correia
aluno do 3º Curso de Paraquedismo Lifecooler/Escola de Paraquedismo Blue Emotions



O avião arranca na sua potência máxima, rumo ao céu azul pincelado com algumas nuvens aqui e ali. No seu interior o estado de espírito é tenso, a maior parte dos pretensos páraquedistas vão saltar pela primeira vez. Há medida que o Cesna começa a ganhar altitude os semblantes vão-se carregando, o pensamento já está lá em cima, perto das nuvens onde irá acontecer o momento da verdade, contra tudo o que é natural, um ser humano somente com um paraquedas nas costas manda-se de um avião como que ignorando que está a desafiar a vida.
Os rostos nervosos vão olhando para o altimetro, a cada 15 segundos que passa, como que temendo que este marque os 4000 pés de altitude, quando lá chegarmos o salto deixará de fazer parte do nosso imaginário e passará a ser uma realidade.

O instrutor via tentando quebrar o gelo, com um sorriso e frases de motivação “...o primeiro salto é o mais fácil...”.
A “persiana” é recolhida, ficamos expostos, olhamos para baixo e pensamos que é esta a vista que os pássaros têm cá de cima, sentimos um nó no estômago e o coração começa a bater a um ritmo mais acelerado. O piloto efectua pequenos ajustamentos na rota, para nos enquadrarmos com o ponto onde seremos largados, até que se ouve “Corta”, os motores deixam de se ouvir tão ruidosamente e a velocidade diminui significativamente.
Vamos, Vamos, Vamos....

Pernas juntas, olhamos em frente, mão direita sobre o coração, o chão passa por debaixo de nós a uma altura que é de arrepiar, respiamos fundo e pensamos seja o que deus quiser...
E lá vamos nós saltamos para o lado com os braços abertos paralelos aos ombros, e pernas igualmente abertas mas ligeiramente dobradas, efectua-se a contagem do paraquedista “Três três um, três três dois, três três três, três três quatro, tempo que demora a abertura automática do páraquedas. Sentimos um ligeiro esticão que nos suga para cima, e....
Estamos a voar, olhamos para cima e, ops...

As cordas estão todas enroladas, há que manter o sangue frio, mete-se as mão entre as cordas e com fortes golpes de rins torcemos no sentido inverso, de modo a que todas as cordas se desenrolem e fiquem devidamente esticadas.
Passado este primeiro problema, vamos rever os conceitos teóricos aprendidos, para efectuar uma rápida verificação de segurança.
Olha-se para cima a calote está aberta com todas as células cheias de ar, o slider está em baixo, lindo está tudo em conformidade, vamos voaaarr....

Puxamos os manobradores, e vamos começar a testar o páraquedas afinal de contas tudo isto é novidade e temos de verificar como ele reagirá às nossas instruções.
Puxando o manobrador esquerdo volta à esquerda, puxando o manobrador direito volta à direita, se puxarmos os manobradores ao nível dos olhos travamos a 25% e ao nível do peito travamos a 50%, com os braços em cima destrava-se completamente.

Não se ouve um único ruído, flutuamos muito acima do chão como se fossemos um dos muitos passaros que passam por nós. A tranquilidade é absoluta, e voar é um prazer enorme, afinal é o sonho do homem desde o inicio da humanidade, observamos a terra de um ângulo que jamais pensariamos ser possivel, e é facil perceber porque os pássaros são felizes...
No entanto todos os sonhos têm um fim, e depressa somos obrigados a voltar a realidade “número 2, número 2, está na altura de ires para o ponto inicial...”.
Ok estamos a sobrevoar o ponto inicial definido lá em cima aquando a largada, olho para o altimetro e estamos a 1200 pés de altitude, damos uma voltinha á direita para perder altitude, 90º, 180º, 360º, 480º e começamos a descer em espiral com a velocidade a aumentar vertiginosamente... pura adrenalina.

“número 2, número 2, dassssse estás demasiado baixo em relação ao ponto inicial, começa a tua trajectória”.
Olha-se para o altimetro, 500 pés e estou a passar ao lado do ponto de aterragem, continuo em frente até chegar aos 350 pés e volto 90º à esquerda, 250 pés novamente 90º à esquerda e já estou de frente para o ponto de aterragem e com o vento a bater-me no rosto.

“...número 2, número 2 braços em cima, destrava tudo...”
iuhuuu, cá vamos nós a valocidade aumenta o chão aproxima-se e só dependemos de nós próprios, pensamos que os controladores ao nível da cintura travam a 100%, mas será que isto trava mesmo, nem sequer tem ABS, bem vamos esperar que não seja demasiado violenta.
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3 metros do chão...
“...número 2, número 2 trava tudo..”
ups, acho que foi demasiado tarde, ou então os travões não estão afinados, ai vem o chãããão, e mais depressa do que o previsto...

A primeira aterragem foi de rabo, mas uma das caracteristicas dos paraquedistas é a sua persistência, e as próximas hão-de ser seguramente melhores...


21.7.03

Homenagem ao poeta desconhecido 

“Budapeste é a mais bela cidade do Danúbio (…) com uma densidade e uma vitalidade que faz frente à sua rival, Viena”, escreveu Cláudio Magris.

Devido à sua história que a liga à capital austríaca ou à geografia que a faz partilhar com a Croácia a grande planície da Panónia, a Hungria parece ser o mais danubieno país da Europa central. Se os rios têm alma, a do Danúbio é, sem dúvida, magiar.

Mais ainda do que a Áustria, tornando-a sombra de si mesmo, a Hungria é, com efeito, impregnada pela civilização danubiana, com sua nostalgia dos tempos passados, anteriores aos tratados de Paz, que celebraram o fim do Império Austrohúngaro e o desmembramento da Hungria.

Foi um húngaro, o barão Miklos Wesselenyi, que imaginou dois dos mais belos sonhos à volta da velha ideia duma federação danubiana: o de uma confederação germano-magiar-eslavo-latina, que enunciou em 1842 e a de uma república federal do Danúbio, aberta a todas as nacionalidades, cuja proposta apresentou em 1949.

A verdadeira amante do Danúbio é a cidade de Budapeste, onde aquele assume o nome de Duna, com quem mantém um casamento tão perfeito como o Sena com Paris. A capital húngara é a única cidade que recebe o Danúbio com todo o seu vigor e nobreza. A única que nele se contempla sem complexos e que lhe oferece pontes com histórias inolvidáveis e cais admiráveis.

Todos os grandes hotéis estão implantados ao longo desta perspectiva fluvial. Mesmo o célebre estabelecimento termal Gellert que prefere colocar as suas cadeiras bem longe das margens do rio não pode evitar de abrir as suas pomposas janelas para este maravilhoso panorama.

A forma de melhor apreciar toda a beleza do Danúbio à passagem por Budapeste é subir até Buda e escolher um dos seus miradouros: a Cidadela, o Castelo ou o inacreditável Bastião dos Pescadores, uma muralha em pedra digna de receber o Romeu e Julieta.

Em Budapeste, o turista, grande consumidor de monumentos, passará por todos os estilos, desde o gótico ao neo-mourisco, mas demorará algum tempo a apreciar o indescritível Parlamento, um autêntico desvario de torres e campanários e um delírio de torreões muito floreados, mesmo à beira do Danúbio.

É necessário observá-lo, pelo menos uma vez, a emergir da bruma matinal para apreciar toda a sua extravagante beleza.

Os viajantes apaixonados e românticos procurarão as margens do rio e a Ilha de Margarida. Preservada ao trânsito automóvel, ela oferece relvados, matas, terraços, piscinas, mas também uma estátua… de um Anónimo, autor da primeira história do país.

Uma cidade capaz de homenagear não o soldado mas o escritor desconhecido, não é uma cidade coma as outras.

Talvez seja por isso que foi a única cidade capaz de compreender e de subjugar o rio impetuoso, para merecer a reputação de “rainha do Danúbio”.

Cooled by Victor Reis




14.7.03

RECORDAR UMA VIAGEM REALIZADA HÁ 20 ANOS 

I

A Ilha da Madeira, terra que é das flores e também... dos amores, é sem dúvida um dos cantinhos de Portugal mais belo, pitoresco e acolhedor. Suas gentes, caracteristicamente afáveis e carinhosas, são vivas e inteligentes, reconhecendo de imediato quem delas se abeira com amizade.

Para o continental, a viagem à “Pérola do Atlântico” é, desde o início, uma aventura. Após a descolagem em Lisboa e depois de cerca de 1 hora de viagem sobre o Atlântico azul e luminoso, já com Porto Santo à vista, o coração acelera o seu bater. O balançar das asas do avião provocado pela forte turbulência local, a visão da pista que mais parece um minúsculo porta-aviões, são sensações deveras impressionantes. Vale a perícia incomparável dos pilotos portugueses para que poucos minutos passados possa ter lugar um uff! generalizado.

II

O Aeroporto do Funchal, situado no concelho de Santa Cruz, é de pequenas dimensões mas o visitante é, de imediato, agradavelmente surpreendido por uma autêntica sinfonia de odores e de cores. São as flores da Madeira. É o primeiro jardim dos muitos que o visitante irá encontrar pelos caminhos da Madeira e acompanhá-lo-á com uma imagem inesquecível.

Nos primeiros contactos com a realidade da Ilha da Madeira o deslumbramento surge com a verdadeira rapsódia colorida de vermelho e verde do infindável número de cactos floridos que ladeiam as estradas e caminhos.

III

A melhor forma de se conhecer os recantos mais belos da Ilha da Madeira é sem dúvida viajar no “Maravilhas”. O “Maravilhas”, “marabelhas” no dizer dos madeirenses, é uma carrinha VW com mais de 20 anos de existência que pelas mão do seu proprietário, o bom amigo Freitas, percorre todas as estradas da Madeira.

Aliás, pela estrada fora, o “Maravilhas” é por demais conhecido a avaliar pelas muitas saudações que lhe são dirigidas e pela forma carinhosa como o Freitas as retribui.

IV

O roteiro gastronómico não poderia ser ignorado nesta deliciosa viagem. E falando em gastronomia logo nos ocorre as tradicionais espetadas que só em “seu sítio” têm o verdadeiro paladar. Subimos à Portela, a mais de 600 metros acima do nível do mar, para aí na “Casa da Portela” nos deliciarmos com uma espetada preparada mesmo ali à vista de todos nós. Claro, antecedendo como aperitivo tomámos uma poncha, bebida aperitivo/digestivo característica da Madeira e que muito irá ser falada nestes apontamentos.

Percorrendo as estradas de montanha, sempre acima dos 800 metros de altitude, e caminhando pelo Santo da Serra, Poiso (1410m), Ribeiro Frio, Camacha e descendo novamente até Santa Cruz, com passagem pela “Varanda”, seguimos a “Rota da Poncha”. O Freitas, nosso inseparável companheiro, lá nos levou aos locais onde melhor poncha se bebe.

V

A poncha pode ser bebida fria ou morna, é um excelente “calorífero” para compensar o frio que se sente no alto da serra. A melhor de todas é a que é preparada na altura, como se diz “ao momento”, de acordo com uma fórmula e um processo cuja origem se perde na bruma da montanha.

Receita da poncha: Mistura-se uma parte de sumo de limão com outro tanto de mel puro de abelhas. Utiliza-se um utensílio apropriado feito em madeira para conseguir a perfeita ligação dos dois ingredientes. Após o que se junta aguardente de cana em quantidade igual à da mistura antes obtida. Mais um ligeiro toque na mistura e a Poncha está pronta a servir.

VI

Quem vai a Ribeiro Frio, lá bem no alto da serra, não deverá perder a oportunidade de visitar os viveiros de trutas. Com água gelada a correr pelas veredas cobertas de fetos, esfriando mais o ambiente já de si frio pela altitude, as trutas nos diversos pontos do seu desenvolvimento são um espectáculo deveras aliciante.

Naquela altitude, inspirar profundamente o ar ambiente, húmido e rarefeito, pode provocar uma ligeira tontura, mas é sem dúvida revigorante e inesquecível por muitos anos que passem.

VII

Camacha, em plena serra, é ponto obrigatório de turista ir. Contudo, quando a peregrinação é feita na boa companhia de um madeirense, bem conhecedor do local, é bastante mais aliciante. A Camacha é demais conhecida pelo seu rancho folclórico e pelos trabalhos de vime. Menos conhecida, mas não menos saborosa, é a “camacheira” - poncha de preparação especial que só ali se bebe.

“O Relógio” local de venda de artefactos de vime e que tem um cantinho que é um autêntico Museu do Vime é local de visita obrigatória na Camacha. Trabalhos maravilhosos, representando animais selvagens, fazem parte desse Museu que o visitante não deverá ignorar.

VIII

Percorrendo as sinuosas estradas da serra, deixando o olhar espraiar até às profundezas dos vales onde as aldeias mais parecem miniaturas de brincar, lá vamos descendo de novo em direcção a Santa Cruz, nossa terra de eleição para base de repouso (?). Bordejando o caminho e ladeando os ribeiros tufos imensos de vime aguardam a maturação para virem a servir de matéria-prima aos maravilhosos artefactos tradicionais da região.

Lá para trás, na Camacha, deixámos inolvidáveis recordações. Além da “poncha camacheira” e dos rostos bonitos das camacheiras só comparáveis em beleza com os das maravilhosas moçoilas do Santo da Serra, ficou também “O Relógio”, verdadeiro Museu do Vime.

IX

Continuámos a descer serra abaixo. Vínhamos a percorrer o que, sem forçar a nota, poderíamos chamar “a Rota da Poncha”. Em cada curva da estrada que parece não ter rectas uma tasquinha era uma sugestão de poncha. A seguinte sempre melhor do que a anterior, o que é da tradição ou talvez fosse sugestão.

O Freitas conhece em pormenor estes locais, trata por tu os donos. O viajante é recebido com carinho, como se de um velho amigo se tratasse. E sai mais uma poncha preparada na altura.

X

Um restaurante típico construído em madeira e implantado no meio da serra é paragem obrigatória. O ambiente é agradável, ali se cruzam raças, nacionalidades diversas, num cacharolete de idiomas, de costumes, de formas de estar. Estamos no antigo quartel-general da Flama, hoje restaurante, onde a par com a bandeira inglesa ainda se vê hasteada a bandeira daquele movimento separatista já caído em desuso.

Petiscar na serra é maravilhosamente agradável. Pedaços de queijo e de presunto, azeitona saborosa, poncha fresca preparada na altura, mais dois dedos de conversa e aí está um bocado bem passado na agradável companhia de alguns amigos.

XI

Aguardar serenamente o fim de tarde na “Varanda”, ali bem juntinho ao Aeroporto Internacional, deixando a vista repousar no azul oceano interrompido pelos agradáveis contornos das ilhas desertas. Movimento intenso e habitual no aeroporto, um vai-e-vém constante de aviões das mais diferentes nacionalidades. É a calma, a tranquilidade, após um dia cheio de surpresas e alegrias.

Conclui-se, ali, das razões da calma e pachorra dos madeirenses. Percorridos os escassos quilómetros que constituem a Ilha da Madeira, segue-se o mar, amplo e profundo, inacessível à maioria dos habitantes da ilha. Porquê, então, viver com maior velocidade?

XII

Manhã cedo, o sol brilhante desperta-nos duma noite bem dormida nas cómodos instalações que o sistema hoteleiro madeirense põe à disposição dos visitantes. O chamamento da Natureza faz-se sentir numa autêntica sinfonia de luz e cor. Garajau, lugar pitoresco ali a poucos quilómetros de Santa Cruz e já a caminho do Funchal é digno de visita atenta e interessada.

A Praia do Garajau, situada numa pequena enseada à beira do grande maciço rochoso onde se ergue o Cristo-Rei, é zona de veraneio, um autêntico paraíso. É constituída por uma larga faixa de calhau rolado junto à qual foram construídas cerca de meia centena de casas de praia. A pureza do ar que lá se respira aliada à tranquilidade, só interrompida pelo rebentar das ondas, são atractivo para quem procurar um pouco de mais contacto com a natureza.

Cooled by Victor Reis

11.7.03

"The Big Apple" 

Confesso que gosto de hamburgers. Não sempre, nem frequentemente, mas às vezes sabem muito bem. E não só os das marcas mais conhecidas, mas também de alguns pequenos restaurantes que ainda os sabem fazer e servir de forma um pouco mais caseira. Era o caso da "The Big Apple", na Av. Elias Garcia, às Avenidas Novas, em Lisboa. Era uma casa de hamburguers recomendável, mas já não é. O bife vem sem sabor, cheio de nervuras, meio frio meio quente. O acompanhamento, uma batata assada à amercana, embora com bom aspecto e no ponto da cozedura, falhou num ponto essencial - o molho. Além de levar só manteiga de alho, quando na América metem natas e queijo, a batata quente absorve muito rápidamente o molho de manteiga, deixando a batata seca na mesma. No prato, contra todas as regras, misturam-se coisas muito quentes, como a batata, com produtos frios, como uma salada sem qualquer tempero ou sabor. Enfim fiquei frustrado, sensação que se agravou quando paguei quase 10 euros por essa pequena refeição e uma talhada de melão de sobremesa.

Por mim, já lá não volto. Boas férias e...sejam exigentes!

Cooled by Luís Santos Silva

9.7.03

Viena dos meus encantamentos 

Não era a primeira vez que chegava à maravilhosa capital da Áustria, contudo, o sentimento de deslumbramento sempre estava presente nessas ocasiões. Formalidades de desembarque, cumpridas com a rapidez que a situação de parceiros da Comunidade Europeia passou a proporcionar-nos, o transporte até ao centro da cidade percorrendo modernas vias e a nostalgia de deixarmos pelo caminho cortadas para locais de beleza ímpar que sempre fazem parte do nosso imaginário de viajantes e, num ápice, aí estamos envolvidos pela musicalidade que permanentemente paira nos ares de Viena.

A partir desse momento terminam as pressas, dos apressados viajantes, os nossos sentidos são completamente absorvidos pelo ambiente ímpar que se vive na cidade da música e do encantamento. Percorrer a Rigstrass é um acto de paixão e, simultaneamente, de contemplação e sempre com um fundo musical que parece permanentemente nos acompanha.

Esta encantadora rua, com 60 metros de largura e 4 quilómetros de extensão foi mandada construir por Francisco José I no local onde existia a muralha primitiva da cidade.

Beethoven, Johann Strauss, Schubert, Mozart fazem-nos companhia enquanto percorremos pausadamente o Stadpark de luxuriosa vegetação onde os autóctones e os forasteiros se juntam numa contemplação inolvidável. Mas também a estátua de Goeth e de Maria Teresa, o monumento a Sissi no Parque Público, e tantos outros locais, estátuas e edifícios do nosso imaginário.

Paramos por instantes na confluência do Rio Viena com um dos canais do Danúbio. Aqui nasceu a eterna cidade de Viena.

A magia do tempo é nesta cidade mais sensível do que em qualquer outra. O tempo flui sem que de tal nos apercebamos e logo somos despertos para a necessidade de admirar outros lugares e novas monumentalidades.

A Catedral de Santo Estevão, como muitas vezes é denominada a Stephansdom, de telhados policromos, cuja construção é riquíssima em arte medieval e renascentista, apela à nossa visita. Uma visita sempre repetida e que de cada vez nos proporciona novas visões e esplendorosas alegorias.

Quando percorremos a Rua Schuler, na direcção da Catedral e mesmo à beira deste monumental edifício, somos surpreendidos por uma enorme fila de charrets que aguardam os turistas que pretendam dar uma volta pela zona antiga da cidade em tão característico meio de transporte, puxado por elegantes cavalos. Os cocheiros, muitos do sexo feminino, estão vestidos a rigor eles de bigodes farfalhudos, elas de longos cabelos loiros.

Visitar a Catedral é sempre um repetido deslumbramento. Não podemos deixar de fazer uma referência, no meio de tamanha monumentalidade, à modesta estatuária em baixo relevo, o auto-retrato do Mestre Pilgram, com compasso e esquadro, autor do púlpito da Catedral que resistiu aos bombardeamentos da guerra, singela escultura que parece acompanhar com os olhos todos os movimentos dos visitantes. Está colocada sob a mísula do órgão primitivo.

No caminho da saída da Catedral cruzamo-nos, ainda, com a imagem de Nossa Senhora das Criadas, assim designada, por que a ela recorreu uma criada acusada injustamente de roubo, tendo-lhe sido reconhecida a inocência.

Na saída uma nova e surpreendente visão. No moderno Hans Hause, construído em 1990, espelha-se em toda a sua frontaria a imagem total da Catedral em mais um assombramento ao visitante já completamente maravilhado por tanta grandiosidade.

Esta é uma pálida imagem de Viena do nosso encantamento. O Danúbio, o Danúbio azul, o Palácio de Schonbrunn, Belvedere, a Ópera, os concertos de Mozart, o Prater, a Torre do Danúbio, o Prédio de Hunderwasse, as largas dezenas de igrejas e os verdejantes jardins e tantos outros locais que nos prendem e encantam.

Para os mais farristas, uma visita a Grinzing a um dos tradicionais heurige dos arredores de Viena, é uma ida a não perder. Que o diga o Agostinho...

Agostinho era um músico de Grinzing que além fazer música apanhava tremendas bebedeiras nos heurige onde tocava. Conta-se que no tempo da peste negra, época em que as pessoas já não conseguiam enterrar os seus mortos, pondo-os às portas para serem recolhidos por uma carroça que os levava para uma vala comum, o Agostinho com uma bebedeira de “caixão à cova” caiu à saída de um heurige e ali ficou até alta madrugada. Quando a carroça passou, considerou-o mais um morto da peste negra e lá o levou para o destino final. O Agostinho ainda esbracejou e esperneou mas já os coveiros se haviam afastado às pressas não fosse caso de serem contagiados por tão terrível doença. O Agostinho lá ficou junto dos cadáveres até ter forças para sair pelos seus próprios meios.

Consta que nunca foi tocado pela peste negra. Daí que alguém mais esclarecido deduza que quem bebe, e bebe bem, vinho de Grinzing, não apanha doença nem mesmo que seja a peste negra.

Cooled by Victor Reis




3.7.03

Postos de Turismo 

Não desfazendo das vossas reportagens que são muito bem feitas, sou daquelas pessoas que não dispensa uma passagem pelo turismo, mas quase sempre apanho uma grande desilusão. De norte a sul do país a cena repete-se: conseguir informações do posto de turismo é quase uma proeza. Com horário de função pública, nem sempre abrem a horas, o período de almoço prolonga-se por mais minutos do que seria normal, fecham aos fins-de-semana, quando deveria ser precisamente o contrário. Então mas não é precisamente ao sábado e domingo que mais se passeia? Para cúmulo dos cúmulos já me aconteceu estarem ao telefone a queixarem-se de turistas mal educados quando uma fila de gente esperava que a senhora fizesse suas queixas à amiga. Isto não se admite. E mais fecham ao almoço quando existem dois funcionários. E que tal passarem a ir almoçar revesadas? Isto tem de acabar. Qualquer dia temos de pedir por favor para sermos recebidos, já nem digo bem. Mas para sermos recebidos. As autarquias, não vêem isto?

Cooled by Mafalda Carvalho Fonseca


Pretensão e água benta... 

A recente Blue Living é bonitinha, isso não há dúvida. Bonitinha, a rimar com azul e rosinha. Mas quanta pretensão, meus senhores! Só os títulos que dão o mote para cada página enervam: “quando é preciso saber viver”? Mas o que é que isto quer dizer?; ou “quando a alma não é pequena” (este é mesmo original...).

E eles têm algum fetiche com as almofadas ou o que é que se passa? Não há reportagem que não esteja cheia das inevitáveis almofaduchas bem garridas e vistosas, já para não falar das cestas de verga que também têm um bom “lobby”. Não há pachorra!

Cooled by Luisa Alves

Manjares dos Deuses 

Em Cascais, no centro - R. Nova da Alfarrobeira, há um local onde se servem pratos de petiscos tradicionais portugueses, de comer e chorar por mais.
Dirigido pelo Rui Fialho - filho do Fialho de Évora - é um espaço de eleição para quem quer momentos de prazer ilimitado.

Cooled by Reis Borges